Tidos como a nova grande febre do momento, os sites de compra coletiva no Brasil já ultrapassam a marca dos Mil. Só de dezembro para fevereiro, o número cresceu vertiginosamente – 153% – chegando em fevereiro à marca de 1025 sites. Na mesma proporção, cresce o número de sites agregadores de ofertas. Os números são contabilizados pelo site Bolsa de Ofertas, que é um blog especializado no assunto.

O modelo da compra coletiva é baseado em uma ação de marketing que visa a compra por impulso. O usuário não tem muito tempo para decidir, pois as ofertas são válidas apenas por um período curto, determinado. Também impulsiona a coletividade, visto que para ser ativada uma oferta precisa ser comprada por um número X mínimo de pessoas – esse incentivo pode fazer com que o próprio usuário comprador indique a oferta para amigos, de maneira a ativá-la. Além disso, cada site tem seus próprios mecanismos para incentivar a divulgação – promoções nas redes sociais, bônus por indicação e outras técnicas.
O tipo de oferta mais comum nos sites de compra coletiva são serviços, principalmente nas áreas de gastronomia e estética. O público feminino, conhecido por realizar compras por impulso, é bem explorado (no bom sentido) nesse modelo de negócio. Eu diria até que a maioria das ofertas é destinada a nós mulheres – seja diretamente, na forma de ofertas para clínicas estéticas e tratamentos de beleza, ou indiretamente, na compra de cupons voltados para lazer com a família – barzinhos, hotéis e entradas para parques ou outros estabelecimentos de lazer.
As ofertas são uma boa estratégia de marketing para os estabelecimentos que trabalham com serviços, pois divulgam a marca e podem (dependendo da qualidade do serviço oferecido, é claro) gerar um vínculo com o consumidor, que voltará novamente pagando o preço normal do serviço, porque gostou e foi bem atendido.
Infelizmente, algumas empresas que participam destas promoções não estão preparadas para a proposta de marketing da compra coletiva. Já vi muitas pessoas reclamando dos serviços prestados através dos cupons promocionais, relatando que a empresa em questão a tratou com um certo preconceito, que não tiveram condições de atender à demanda ou simplesmente, de uma maneira geral, foram mal atendidos e não voltariam a consumir nada daquela empresa.
O objetivo da compra coletiva, para o usuário, é o preço baixo. O objetivo da compra coletiva para a empresa anunciante é o vínculo, a fidelidade do cliente, o buzz marketing. É por isso que o modelo funciona tão bem para serviços. Já para bens de consumo, a experiência pode não valer a pena, para os dois lados.
A compra de bens de consumo duráveis e não exclusivos (eletrônicos, eletrodomésticos por exemplo) é diferente, porque o que a Empresa A está fazendo é um repasse, ela não tem exclusividade, o produto é o mesmo que as empresas X e Y oferecem. O cliente vai comprar unicamente por causa do preço, e mesmo que seja muito bem atendido, esse atendimento não tem a “intimidade” que a prestação de serviços oferece. Ou não possui a exclusividade do produto (para que o cliente goste tanto que volte a comprar depois). Numa próxima oportunidade, o cliente não terá inclinação de comprar novamente na empresa A caso ela não ofereça o preço mais barato. Já com relação aos serviços – que por mais que sejam “iguais” são sempre diferentes, afinal a Pizza do Zézinho não chega nem perto da Pizza Hut – o cliente poderá sim preferir o estabelecimento que ele já conheceu, dando-lhe prioridade mesmo que o preço seja mais elevado.
Além disso, esse tipo de produto geralmente não se tem em estoque em grande quantidade. De maneira que o prazo de entrega fica bastante comprometido, o que é negativo para o cliente.
É por isso que não é comum vermos bens duráveis em ofertas de compra coletiva. Após essas considerações, posso relatar minhas três experiências com compras coletivas até hoje. Uma positiva, uma neutra e uma negativa.
1. Primeira compra – experiência positiva
Minha primeira compra coletiva foi uma assinatura de 6 meses da revista Galileu, ofertada pelo Groupon. A meu ver, a assinatura de uma revista mescla produto e serviço. A experiência foi 100% positiva, os exemplares começaram a chegar no mês seguinte, e a revista em si eu já conhecia e admirava bastante, sempre quis assinar. A oportunidade foi perfeita, e ao término dos seis meses, eu e muitas outras pessoas que compraram iremos renovar a assinatura pelo preço habitual, porque o serviço / produto oferecido foi muito apreciado e não vou mais querer ficar “sem ele”.
2. Segunda compra – experiência neutra
A segunda compra foi um procedimento estético, no ClickExclusivo. Não tenho do que reclamar, fui muitíssimo bem atendida, gostei bastante do tratamento (facial). O único porém é que não vi nenhum resultado, nada que eu não poderia conseguir em casa mesmo com meus produtinhos. Minha conclusão disso foi que não valeria pagar o preço integral neste estabelecimento, e se eu quiser fazer realmente esse tratamento de novo vou procurar uma clínica mais profissional.
3. Terceira compra – falta de profissionalismo, ou picaretagem?
Comprei, paguei e não levei, a minha sorte é que a transação realizada pelo PagSeguro possui um sistema de segurança em que podemos solicitar o dinheiro de volta até 14 dias depois da compra – eles não repassam o dinheiro para o vendedor antes desse prazo.
Esse site de compras coletivas – Família Eletro – vende eletrodomésticos. Já era de se estranhar a princípio. Depois, com os valores envolvidos nas ofertas, era de se estranhar muito mais! Uma TV da Sony de 40 polegadas, LED, que nas lojas custa em torno de R$ 3.000,00 – por R$ 1.799,00.
O pior é que já existem centenas de reclamações sobre essa empresa nas interwebz, em sites como o “Reclame Aqui” (334 reclamações, e o número vem aumentando) e em comunidades do Orkut, em especial na “Compras Coletivas Oficial” – da qual participei e acompanhei durante esse período. Pessoas que já compraram desde dezembro e até hoje não receberam seus produtos, muitos não sabiam o funcionamento do PagSeguro e não pediram o dinheiro de volta na disputa. É verdade que algumas pessoas receberam seus produtos (muito depois do prazo, mas receberam). Porém, alguns afirmam que é uma tática para que continuem comprando.
Só realizei a compra porque estava assegurada pelo PagSeguro, mas estava ciente de que poderia ser um golpe. Pois bem, ao abrir a disputa no PagSeguro para obter o dinheiro de volta, eles não demoraram em responder. 48h depois já estava à minha disposição o valor integral, e em resposta, um texto padrão que dizia que para evitar maiores transtornos eles estavam devolvendo o dinheiro das pessoas.
Então, fica o alerta: se a oferta for boa demais, desconfie! Afinal, dependendo do produto, eles não têm como ter em estoque, dessa maneira não é possível garantir um prazo de entrega. Se o pagamento for via PagSeguro, você tem uma segurança a mais. Até hoje não sabemos ao certo o que essa Família Eletro está querendo, pode ser apenas puro amadorismo e despreparo, mas o consumidor não perdoa: já existem processos sendo abertos, e a empresa não deve durar muito tempo ainda. Mas ao fim das contas, ainda poderão levar uma boa grana na jogada.