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Desvanecer

Não me agradava o jeito dela falar, a expressão que via em seus olhos. Mesmo com todos os meus esforços, não conseguia mais prestar atenção ao que ela dizia, eu só enxergava aqueles movimentos engraçados que os olhos dela faziam, acompanhando o seu raciocínio. Era comum acontecer isso comigo, e para voltar à realidade, levava um bom tempo. Tempo suficiente para perder-me entre o azul de seus olhos, e sentir o mundo em câmera lenta, numa volatilidade sem fim. Como numa queda bem devagar; as palavras ficando cada vez mais longe, longe. Dissolvendo-se no infinito azul.

Logo era o frio, o barulho seco, o chão. Teria eu desmaiado? Não sabia mais quem era, o que fazia ali. Na verdade, eu nem sabia aonde estava, e sentia mesmo que poderia estar em qualquer lugar, em qualquer época, eu me sentia solto no mundo. Sem conexões. Milhões de partículas que não faziam parte de nada específico, um aglomerado de células que pertenciam a tudo, a todas as criaturas.

Se pelo menos eu pudesse me lembrar o que me levara até ali… Mas talvez fosse melhor não lembrar. Desligar tudo, pois a dor poderia ser inconcebível. Havia um bloqueio, eu sei… eu não queria lembrar. Uma irresistível sonolência me embalava, até que um trovão pareceu rasgar meu peito; meu coração pareceu gritar, e percebi que meus olhos estavam mesmo fechados antes, pois agora eu via muitos rostos por cima de mim, preocupados, abalados, apressados. Máscaras. Médicos.
Um Hospital. O que eu fui fazer ali?
Cheguei mais perto da grande barreira entre a realidade e a fantasia, e uma dor cresceu dentro de mim; não uma dor física, mas um nó que me apertava a alma. E eu nem sequer sabia o que me fazia tão mal.

A única coisa da qual eu tinha certeza era que eu não estava bem, e que ficaria pior ainda se lembrasse o que tinha acontecido. Talvez fosse melhor forçar meu subconsciente a soltar toda a verdade, assim a dor vinha de uma vez e, quem sabe, eu descansava, definitivamente… Mas a coragem falha nessas horas. Ninguém nunca está preparado o suficiente para morrer.

As conexões, por um momento desfeitas, começavam a se unir novamente, e uma certa lucidez me trazia a lembrança vívida do azul. Um azul tão imenso e enebriante. Seria o céu, o mar?
Não. Eram os olhos de Cecília.

Agora eu lembrava: os olhos engraçados da enfermeira, não tão azuis quanto os de Cecília, é claro, me levaram lentamente ao chão, quando, dissimuladamente, confessaram a verdade inevitável, o decreto final, que chegava numa frase ridícula: “Fizemos tudo o que foi possível para salvá-la”.

A Janela

Olhava enfeitiçada pela janela, perdida em pensamentos que ninguém conseguiria dizer quais foram. Subiu para o quarto com algum objetivo, talvez pegar um livro, buscar uma roupa, encontrar qualquer coisa que já nem lembrava mais o que era. Seus olhos vagaram para tentar achar essa coisa e se detiveram naquela janela.

Daí então se perderam, no vazio, no horizonte, no nada, ou no tudo; como preferirem. Desligada. Off. Voltou a si tempos depois, e não lembrava mais o que tinha ido procurar.

Você com certeza vai dizer que isso já lhe aconteceu, talvez diversas vezes, mas dessa maneira acredito que não. Quando isso acontece a gente sempre se preocupa pra tentar lembrar o que era mesmo que tínhamos ido buscar.

Mas naquele momento ela não se importava mais com isso, com certeza era uma coisa muito insignificante para ter se perdido ante à janela. Aquela janela. Ou melhor, a janela era algo importante demais para ser ignorada diante de qualquer coisinha do dia-a-dia.

A janela dizia muito, sem dizer nada. Ela queria ter poder sobre a janela; queria fazê-la mostrar uma idealização concreta criada em sua mente, desejada, queria que ela lhe mostrasse uma bela paisagem, uma linda mulher, uma cena romântica.

Mas a janela só mostrava o que era real. Não que essas coisas não pudessem ser reais; elas eram reais em seus contextos.

Mas ali, no quarto, a janela não poderia mostrar mais do que mostrava naquele momento: uma mulher cansada, uma mulher velha. Uma mulher muito velha por dentro, muito jovem por fora, mas com aqueles traços que transpareciam a velhice da alma. Uma mulher cansada de embrulhar com uma silhueta mal feita a beleza velha que guardava dentro de si. Porque por dentro, a beleza é sinal de velhice. Por dentro é tudo exatamente o oposto do por fora: o velho é muito mais belo que o novo. E essa beleza era trancafiada e escondida por uma embalagem mal acabada.

O quão ridículo isso pode parecer aos olhos que vêem além da embalagem? Que espécie de brincadeira era aquela, que parecia não ter graça absolutamente nenhuma?

Ah, a graça. Quisera ter toda a graça da irmã, da prima, da amiga. A graça que atraía os olhares, os elogios, os galanteios.

Por que então olhava tão enfeitiçada para o espelho? Porque conseguia ver através da janela, dos seus próprios olhos, a visão da beleza mais pura, como uma Afrodite nascendo da concha. E até se alegrava nesses momentos por ter a certeza de que ninguém com olhos cerrados se encantaria com a sua beleza velha.

Ninguém cego ao interno estaria lhe cercando e lhe equivocando. Por isso a janela, ou melhor, o espelho, lhe atraía, apesar de não ser formosa, e na frente dele passava momentos de tranquilidade. Não era como as outras, que se entristeciam diante do espelho. Ela, pelo contrário, se confortava e se aliviava.

Mas quando andava na rua, e não via a janela, sentia vontade de desaparecer.

O presente e a embalagem

Uma frase que minha mãe me disse um dia, eu que eu nunca esqueço: “só sofre uma desilusão, aquele que um dia se iludiu”.
Guardo comigo para quando, um dia, precisar dar conforto a uma filha, uma sobrinha, uma amiga, que tenha se decepcionado com o amor. Porque é sempre assim: a decepção chega porque fazemos uma idéia, temos uma expectativa, que não é atingida. Mas no fim das contas, o erro pode ter sido de quem se iludiu, porque imaginou uma pessoa que não existia. Imaginou uma relação de sonho, como aparece nos filmes e nas estórias românticas.

A vida nos surpreende com sua realidade. O amor existe e é maravilhoso, mas também existem outras coisas: responsabilidades, trabalho, stress, cotidiano, contas a pagar, casa para arrumar, enfim. As ditas “coisas práticas” da vida estão ali pra trazer a gente de volta à realidade, para mostrar que quem manda é ela (a matéria), e que amor (ou arte), na maioria dos casos, não enche a barriga de ninguém.

Mas a gente sabe que isso não é verdade. Fingimos que acreditamos nela (na matéria) só pra ela não encher o saco. No fundo, todo mundo sabe que o amor é mais importante, que a arte é mais importante, que a obra mais prima de todas é feita com o coração e com a criatividade, e não com dinheiro. No fundo a gente sabe que a matéria é só o veículo, e que alguma coisa mais importante precisa desse veículo para trazer ao mundo coisas belas e únicas, para tocar o coração das pessoas.

Pena que tem gente confundindo o veículo com o caminho. A embalagem com o conteúdo. O exterior é tão supervalorizado, que esquecem do conteúdo… que tipo de relacionamento essas pessoas esperam ter? Precisam encontrar alguém igual a elas, que se contentem em receber de presente lindas caixas cheias de nada. Ficam horas admirando os ornamentos da caixa, e na maioria das vezes nem sequer abrem para ver se tem algo dentro. Pode até haver algo precioso; mas ficará perdido.

Em contrapartida, quantas pessoas oferecem diamantes em velhas caixas de sapato? O sábio não fará distinção entre as caixas, sabendo que o presente está sempre em seu interior.

Mas o nosso mundo é movido pela beleza; por isso as caixas também merecem um verniz, um enfeite. Sempre tendo a consciência de que o mais importante é o conteúdo da caixa, e não a caixa em si – afinal, para que servem as caixas e embalagens, senão para envolver de maneira a tornar mais belo e atrativo o conteúdo que carregam?

Escrevendo com sangue

Os melhores textos são escritos com sangue. Seriam bons se escritos com lágrimas, porém lágrimas não tingem o papel.
Quando perguntado sobre o “método” que utilizava para criar suas estórias para crianças (depois do sucesso de “A menina e o pássaro”, livro que funciona como metáfora perfeita para uma série de questões da vida), Rubem Alves respondeu simplesmente que a idéia era como uma ferida; ela aparecia, e começava a coçar. Ele coçava, até sair sangue. Quando saía sangue, a estória estava pronta para ser escrita.

As boas idéias são assim. Aparecem como um incômodo que precisa ser expurgado. Chegam a fazer sofrer. Às vezes ignoramos e elas vão embora assim como vieram, de repente. Você esquece. O que é uma pena, porque às vezes são idéias tão singulares, como pássaros em extinsão, que nunca mais pousarão na varanda da sua mente.

Como se forma um escritor

25 de julho: dia do escritor. E afinal, como se forma um escritor?

Acima de tudo, um escritor de verdade é alguém com grande imaginação, e muita sensibilidade.
Porque não basta saber as regras do português, não basta escrever certo. É preciso mais, é preciso profundidade, porque um verdadeiro escritor é aquele que consegue transpor para o papel coisas que vão de dentro da sua alma, coisas que a mente imagina e desenvolve, para serem depois expressas por palavras.

Escritor é artista, e arte é expressão particular de cada um.

Muitas pessoas acreditam que um bom escritor se forma na faculdade de letras ou jornalismo. Eu não compartilho dessa opinião. Para mim, não existe curso para se formar um escritor, nem para formar um artista. O que existe é o estudo das ferramentas que se vai utilizar, como em qualquer meio – alguns pintores estudam os métodos de pintura e desenho, e a partir daí desenvolvem seu próprio estilo. Designers fazem cursos de photoshop e outros programas, mas isso por si só não lhes dará a inspiração necessária para ser um profissional de sucesso. Em contrapartida, muitos, talvez até a grande maioria dos artistas, é autodidata, vai aprendendo a usar suas ferramentas na experimentação, com a prática.

O mais importante não é o material e sim o conteúdo; conseguir expressar o seu conteúdo é o que pode transformar você em um artista, seja de qual área for.

Um músico, por exemplo, é completo quando imprime sua personalidade e suas idéias nas músicas que faz. Por isso alguém que escreve suas próprias letras é um verdadeiro artista para mim, e irei respeitá-lo muito mais do que aquele que apenas interpreta canções dos outros.

Na questão da escrita, isso fica mais evidente. Primeiro porque a ferramenta utilizada nessa arte é a mais simples e dominada por praticamente todas as pessoas: lápis e papel – basicamente falando, nos tempos atuais, não conferem a dificuldade que um violão oferece ao músico iniciante. O que acaba resultando no fato de que, na escrita, não há espaço para cover ou cópia. A originalidade é uma premissa fundamental.

O que é uma necessidade comum para todas as artes, e para qualquer coisa que se queira desenvolver a contento, é a prática. Qualquer atividade pode ser melhorada com a prática constante; no caso da escrita, além de escrever, também temos de ler bastante, duas, três vezes mais do que escrevemos. É assim que se cria a bagagem necessária para ser um bom escritor.

Um dia eu ainda chego lá!

O Mundo das Idéias

Quando estou pensando, eu pareço triste.

Mas não é tristeza; é concentração, e é sintonia. Sintonia com o Mundo das Idéias, um lugar muito distante e triste, porque está repleto das coisas que ainda não existem.

Andar nesse mundo faz a gente parecer solitário e pensativo; é um sacrifício que fazemos, para podermos encher o nosso mundo de coisas belas e interessantes.

Quantos grandes homens e mulheres já perambularam por esse mundo, bem como ilustres desconhecidos, não é possível dizer. Eles vêm e vão a todo instante, sempre solitários, pois esta é uma caminhada que só se pode fazer sozinho.

As pessoas do mundo, que vivem sem nunca pensar no que não se pode tocar, não veriam nada no Mundo das Idéias. Veriam apenas os “pobres caminhantes”, vagando aparentemente sem destino algum. Somente os caminhantes, pessoas que estão acostumadas com o intangível, são capazes de enxergar e ouvir as idéias que vivem ali.

Apesar de triste, esse mundo é muitíssimo bonito, e nem todas as idéias querem deixar de ser ideal para se transformarem em real. Por isso precisamos conversar com a idéia, sentir sua tristeza, envolvê-la e acalentá-la como se faz com um filho. Só assim ela concordará em nascer de nós.

A Surpresa do Ingênuo

A surpresa do ingênuo é descobrir que foi otário, que se deixou enganar, que confiou quando não deveria, que deu a mão quando não podia; achando que faria um bem, se fez mal, e também fez mal ao aproveitador, que deixou de aprender alguma coisa, que deixou de fazer alguma coisa que lhe ajudaria a crescer, a ser alguém melhor.

A surpresa do ingênuo é perceber que, por mais que tivesse certeza, se enganou, inventou em sua cabeça uma pessoa que não existe, e isso é o que decepciona mais; descobrir que a tal pessoa na qual acreditou, só existe mesmo na sua imaginação.

A tristeza do ingênuo é se sentir subtraído, não materialmente, mas na alma; pior que se sentir traído, é se sentir burro demais por não perceber coisa tão óbvia; é perceber que o erro maior foi seu, e que por mais que prometa a si mesmo que isto nunca mais voltará a acontecer, sabe que continuará sempre ingênuo, será sempre aquele bom e velho otário.

A alegria do ingênuo é quando descobre que existem alguns nos quais se pode confiar, ao contrário do que as suas experiências anteriores demonstraram. Que algumas raras pessoas, ainda que em certos momentos inspirem desconfiança, acabam por surpreender mostrando-se verdadeiras e leais, consigo e com os outros. Nesses momentos de deslumbramento e revelação, é que o ingênuo descobre que a falha não está em si mesmo, por confiar demais, e sim naqueles que não honraram a sua fé.

E assim seguem pela vida os ingênuos, numa constante batalha entre confiança e desconfiança, decepção e surpresa. Cada vez tendo mais certeza de que valeu a pena; que em cada tropeço, avança-se 5 passos no caminho da sabedoria.

Do direito à tristeza

De vez em quando, o nosso corpo fica doente – uma gripe, uma alergia, ou a preferida dos tempos atuais: a “virose” – e nós já sabemos que é preciso ter paciência, pois o mal estar não vai embora de uma hora para outra. Cada um já sabe o que pode fazer para aliviar o incômodo e ajudar a melhorar – seja um remédio comprado na farmácia, ou uma receita caseira ensinada pela avó. Algumas pessoas preferem ir logo a um especialista. Às vezes sabemos o que acarretou a doença: um amigo gripado que você conversou, uma comida duvidosa que você comprou na rua; outras vezes não temos a menor idéia do que causou aquilo.

Nossa alma também fica doente às vezes. Igualmente às doenças do corpo, as tristezas da alma aparecem mesmo sem motivo aparente, variam de intensidade, pode ficar por apenas algumas horas, ou um dia inteiro, dois dias, uma semana até. Se demora demais a passar, aí sim, sabemos que tem alguma coisa errada. Nesse caso, o melhor a fazer é sempre procurar um especialista capaz de nos orientar.

Em ambos os casos, saber o que causou a doença é sempre de grande valia, para sabermos qual será o tratamento adequado.

Acontece que, hoje em dia, ficar triste se tornou algo proibido. Você tem de estar o tempo todo “de bem com a vida”, como eles costumam dizer. É a era do otimismo, da “lei da atração” e outras coisas, que realmente possuem a sua verdade, mas precisam ser bem entendidas para não virarem um monte de bobagens da auto-ajuda.

Eu acho isso uma falta de bom senso. Não existe essa criatura que viva feliz vinte e quatro horas por dia, todos os dias do ano. Se existir, não é uma pessoa, é um personagem, porque nem os palhaços são assim. Inclusive, falar sobre palhaços me lembra uma passagem que li em “Watchmen”, volume 1, e me marcou bastante. Rorschach conta, enquanto visita o túmulo de Edward Blake, o comediante, esta piada: Um homem foi ao médico, queixando-se de profunda depressão.  A vida lhe parecia dura e cruel, e ele se sentia só num mundo ameaçador. O médico lhe receitou um tratamento simples: o homem deveria ir ao espetáculo do grande palhaço Pagliacci, que estava na cidade. Isso com certeza iria animá-lo. O homem, entretanto, de desfez em lágrimas, e depois disse: “Mas doutor… Eu sou o Pagliacci!”

A tristeza existe e tem a sua função. Ela exige recolhimento, reflexão. Um momento de olhar para dentro de si, sem as fantasias que usamos no dia a dia.

E como diz o mestre Rubem Alves, “Ostra feliz não faz pérola”. É preciso entrar um grão de areia em sua concha e incomodá-la, para que ela o envolva numa bola bem lisa e assim acabe com o seu sofrimento – assim nasce a pérola. É como a criatividade, que surge de algo que nos incomoda; algo que precisamos tirar de dentro da gente, para transformamos em matéria.

É claro que ninguém gosta de estar triste, como não gostamos de estar doentes (se bem que algumas pessoas gostam sim). Mas, no geral, sabemos que aquilo irá passar, e que um momento de introspecção (assim como o repouso na doença física) é necessário.

Ceticismo como castigo

À medida que vamos crescendo, perdemos pouco a pouco as nossas crenças infantis; descobrimos que “Papai Noel” não existe (apesar que desde criança eu já sabia disso), muito menos o “Coelhinho da Páscoa”. Que não tem nada demais embaixo da cama, ou dentro do armário. E se o galo cantar quando você estiver fazendo uma careta, nada irá acontecer.

Chegamos à adolescência e vamos perdendo mais algumas de nossas crenças dessa nova fase – descobrimos que o primeiro beijo não é lá essas coisas, que nada demais acontece porque completamos 13 ou 15 anos (mesmo se fizermos uma baita festa), e não “viramos adultos” quando completamos 18 anos. O príncipe encantado não tem nada de encantado, e é mais fácil e mais comum um príncipe virar sapo, do que o contrário acontecer.

A questão é que vamos, pouco a pouco, comendo a maçã… e o preço que pagamos por isso é alto, porém, justo. À medida que vamos tendo acesso ao conhecimento e às verdades da vida, pagamos com desilusões, e vamos ficando cada dia um pouquinho mais céticos com relação ao mundo e às pessoas. Esse é um processo natural.

Parece que quanto mais conhecemos as coisas do mundo, as leis físicas, as descobertas científicas, mais provamos o gostinho amargo do “tanto faz” . É amargo, porque não deixa de ser uma decepção. Na verdade, não é um ceticismo completo; é simplesmente a incerteza. É chegar à certeza de que não se pode ter certeza de nada nessa vida.

É como amar, se desapontar, e não querer mais amar ninguém. Ou querer, mas ter medo, não entrar 100%, ficar sempre com um pézinho atrás, pronto pra dizer “eu já sabia!!!” no momento oportuno.

Enquanto aqueles, que vivem na ignorância, não carregam dúvidas ou incertezas, seguem adiante sem olhar pros lados, e parecem ser sempre felizes.

Quem mandou comer a maçã? Você já sabia, que tudo tem um preço, e que você paga pelo que você sabe.

Nem tudo se encontra no Google

Nossa mente, esta máquina evolucionária incrível (Darwin que o diga), sempre tende a nos pregar boas peças. Quanto mais aprendemos, lemos, ouvimos e observamos as coisas, mais entulho vai sendo armazenado em nosso cérebro. E a nossa tendência natural é sempre querer explicar tudo, encontrar fórmulas e receitas que possam nos dar a segurança que apenas a ciência e os livros se propõem a oferecer. Muitas vezes nos enganamos.

As novidades da ciência e tudo mais, você pode encontrar nos livros e na internet facinho. Mas aquela receita que só a vovó sabia fazer… Se você encontrar, pode tentar reproduzir, mas não ficará igual. Quem sabe depois de muitas tentativas… e mesmo assim, duvido muito…

Diante de um mundo tão cheio de informações, onde é possível encontrar de tudo um pouco, o homem se torna cada vez mais seguro de sua própria sabedoria. Mas não se engane, é só ilusão mesmo. A gente acha que sabe de tudo, mas não sabe não. As coisas mais importantes da vida, não se encontram nos livros, nem no mundo das idéias. Essas coisas a gente só encontra na vida real, e nas experiências que vivemos – ou seja, na prática.

E não precisa ser uma experiência terrível, ou algo que vá deixar traumas pro resto da vida… As lições que a vida nos traz chegam diariamente, em todos os momentos, cada vez que você pára de divagar sobre o passado ou futuro, e presta atenção no presente. As mensagens aparecem, e quase sempre não nos damos conta disso.

Porque vivemos sempre “ao pé da letra”. Buscando informações, manuais (de preferência com fotos, ou até um videotutorial no youtube, melhor ainda!) sobre tudo, inclusive as coisas que não podem ser restringidas à pequenez de uma definição, de um “verbete”. Até sobre o amor, queremos ler e estudar, então acabamos sempre absorvendo conceitos que outras pessoas criaram, de acordo com suas próprias experiências e a sua própria realidade.

Quantas vezes ouvimos uma estória, ou assistimos um filme, e nem sequer cogitamos um significado por trás – nos apegamos apenas ao que a cronologia dos fatos conta. Mas existe muito mais – lembra dos velhos contos de fadas, tão cheios de “moral da história” ? A maioria das estórias possuem seus próprios significados, e devemos procurar compreendê-los na medida do possível.

Às vezes, uma simples frase pronunciada no meio de um filme, pode ter mais significado para quem está assistindo do que para quem criou a estória. Quando estamos prestando atenção no momento presente, conseguimos captar as mensagens que “algo maior” nos traz, e quando digo “algo maior”, tanto pode ser Deus, como uma força magnética que nos aproxima das experiências que serão significativas na nossa vida. Pelo menos, é assim que penso.

Disso não se pode discordar: tem coisas que não dá pra buscar na wikipedia, e nem no Google… Só vivendo pra saber.